Penso, logo existo. Assim supõe Descartes que o homem seria a expressão exata de seus pensamentos. Nem só Descarte, mas também seus interpretes. A verdade é outra. Ou Descartes confundiu a muitos com suas palavras, ou então ninguém foi digno de compreendê-lo. No entanto, é chegado o momento de todos saberem o que supostamente pode ter sido enunciado por aquele homem ou a interpretação exata em consonância com a sua afirmação: Penso, logo existo.
O ato de pensar é uma ação. O fato de o homem pensar é prova de sua existência, sem dúvida alguma. Mas mero absurdo se diz quando tal homem é um pensamento. Logo, sendo tal homem um pensamento, que coisa mais estranha é entender que um pensamento daria a si o comando de pensar. Aqui, assim fosse, o objeto e o sujeito tornar-se-iam uma coisa só. É bom que aprofundemos acerca do discorrido e tornemo-nos daqui em diante mais esclarecidos a respeito de nossa existência e o que somos.
Se a vontade determinar que um homem pense, e assim for, ocorrerá tudo bem. No entanto, se ele não estiver disposto para submeter-se a ela? Pela ação de pensar reconhece-se apenas o aspecto desconhecido e oculto de nossa natureza. A afirmação do filosofo merece aqui consideração, e por mais que a razão aparte-se de sua afirmação, ela orienta-nos em direção certa.
Supor um homem como um pensamento origina-se de observações simples. Que é o homem, ao nosso raso conhecimento, senão uma ideia abstrata? E o que é abstrato e pode ser comparado ao homem? O pensamento e a essência real do homem, coisas insondáveis. O homem é um ser que pensa, é o sujeito, seus pensamentos constituem o seu objeto. Fosse, portanto, o homem um pensamento, o imaginaríamos como um objeto, porque pensar é uma ação e só pode ser alvo da vontade de um sujeito, este seria o homem. E que é o homem?
Pelas palavras ditas por Descartes, prefiro aquela interpretação que está mais amparada na razão. A explicação para a sua afirmação é outra diferente das que circulam entre os homens, além de ser muito mais sugestionável a todos.
O ato de pensar é uma ação produtiva, a curto, médio ou longo prazo. Pensa-se para o bem assim como para o mal. O pensamento é indiferente a tais forças. Mas, ao que realmente importa, o objetivo do homem é o pensar. Ora, isso se comprova por diversas maneiras. Aos que buscam respostas pelos meios espirituais, não se pode negar que a decadência do homem não o tenha obrigado a caminhar pela senda do conhecimento. Não fora determinado por Deus? Ele nada disse acerca da condição dos homens, conhecedores do bem e do mal? Esclarecendo aqui às indagações dos homens que creem aos que não, se é reconhecível no homem a faculdade de pensar, por que então não é permissível afirmar que ele tem como objetivo se dar ao pensamento? Ou então, podemos julgar sensata a decisão de um homem que negando o dom da visão que possui, prefere tornar-se cego? Isso é praticar a liberdade ou ser acometido pela loucura?
Daí se deduz o óbvio. Ou o homem pensa, fazendo jus à faculdade que lhe foi concedida, ou a menospreza. Ou pensa ou não pensa. Noutras palavras, o homem que pensa é digno de viver, enquanto ao que ignora isso, pode ser considerado como um homem a quem não pode ser atribuído à razão de existir. Estes, para alguns, seriam bons ao aborto.
Pensar é, portanto, dar razão a existência!
 



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